Mês: junho 2017

XIX Crônica: Da janela do ônibus.

Depois de passar alguns dias na casa de um amigo, Haroldo pega o ônibus de manhã cedo de volta para o Rio de Janeiro. A viagem é tranquila, apenas um pouco longa. Ele senta-se quase sozinho no veículo e aproveita a vista das ruas numa bela manhã de domingo.

 

Da janela ele vê um filho acompanhando a mãe na feirinha. Ele carrega algumas frutas e vários legumes pra ela, que parece bem cansada e fraca. Ela dá ordens a ele, que obedece sem fazer muitas caretas. Batem boca uma hora, mas não brigam de fato. E no fim, já esperando pra entrar na van, ele dá um beijo e um abraço nela. Entram e partem.

 

Mais à frente enxerga homens sentados na frente de um bar, já fechado. Eles têm, entre si, um litrão de cerveja pela metade e uma cachaça. Eles tomam juntos a cerveja, que acaba rapidinho. Um deles puxa a outra bebida pra si, enche um copinho e oferece ao parceiro. Eles conversam muito, bebem, riem alto e se divertem. Apontam para qualquer direção enquanto falam de tudo. Um deles tenta levantar, mas cai. O outro ri. Eles se xingar e riem mais ainda.

 

Depois de algumas quadras, Haroldo vê um grupo de jovens, gente da idade dele praticamente, virados depois de alguma festa. Mal conseguiam caminhar direito, e a visão devia se confundir em meio ao álcool no sangue e à fumaça de cigarro que alguns deles fumavam. Um casal começou a se beijar, sendo deixados pra trás por alguns minutos pelos amigos. Vendo a brincadeira feita, os dois rapazes pararam e, de mãos dadas, continuaram a seguir o grupo.

 

Quando parou no sinal, Haroldo viu pela janela um rapaz andando apressado. Ele tinha consigo uma sacola transparente, a qual dava pra ver o que tinha dentro: chocolates e doces em geral. Nos olhos do rapaz, animados e nervosos, dava pra ver que ele estava com pressa. Ele sumiu e foi reaparecer alguns quarteirões à frente. Ele havia encontrado uma mulher. Eles se olhavam de uma forma apaixonante, rindo como bobos que deviam ser. E ser bobo, nesse caso, é a melhor coisa possível.

 

Ele entregou a ela a sacola. Se beijaram apaixonadamente, riram juntos e ficaram abraçados por alguns longos minutos. Haroldo não viu o que fizeram depois. O ônibus continuou seu caminho, e o casal continuou seu amor.

 

Viu então, em frente a um restaurante, um homem almoçando. Era cedo, mas ele já comia. Estava sozinho, apenas com seu prato. Seu rosto estava baixo, cansado e sereno. Ele comia como se não sentisse gosto, como se fosse apenas pra não morrer. Bebia água como se não tivesse nem o gosto de matar a cede. Não esboçava nenhuma emoção sequer.

 

Atravessou a ponte de volta para o Rio de Janeiro. Ali, pensou em tudo que viu. Sentiu saudades de várias coisas, e até sentiu os olhos ficarem marejados. O ônibus ainda estava meio vazio. O sol da manhã do domingo entrava pela sua janela, sem filtro ou perdão. Inundava seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. E ele sentiu, dentro de si, tudo aquilo de novo. Saudades, tristeza, culpa e amor. Todos juntos. Como, em muitos casos, eles costumam andar.

 

Finalmente chegou ao seu destino. Desceu, viu sua casa e caminhou pra ela. Mas sem antes ver, do outro lado do quarteirão, uma senhora se despedindo de um senhor. Este entrava no ônibus. Ela ficava. Ambos sorriam. E Haroldo não segurou nem mais um segundo o choro.

 

 

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O amor nem sempre é o suficiente.

O amor é o sentimento mais complicado que tem. Por isso escrevemos tanto sobre ele e ainda assim não se esgotam as palavras. É o sentimento mais complexo e bonito que existe. Onde há amor há felicidade. Mas também há dor. E não porque o amor seja ruim, mas porque, às vezes, ele encontra barreiras pra poder existir. E nessas horas percebemos que palavras como “reciprocidade” ou ideias de que o amor pode tudo não são tão fortes assim.

 

O amor pode cansar, porque ele é rotina, e não apenas bons momentos. Ele é compreensão, parceria e cuidado. A gente se importa com quem ama, e demonstra que estamos ali sempre pela pessoa. É claro que nem sempre poderemos estar pessoalmente, ou até fazer de tudo que gostaríamos. Às vezes nem sequer poderemos fazer a pessoa feliz naquele dia ou em tantos outros. A gente tenta, e tenta bastante, quando ama mesmo; e nem sempre conseguiremos fazer nosso parceiro feliz. Mas o amor tem dessas coisas. Ele não é perfeito.

 

O amor se constrói todos os dias. É difícil dizer que se ama alguém logo de cara. Acontece, claro, mas acho difícil. A gente o molda nos nossos pequenos atos e manias, e deixamos lembranças dele por aí, como fotos num álbum. A gente elege um bar favorito, onde mais costumamos ir; a gente lembra das comidas que o outro não gosta, pra, só de brincadeira, colocar aquela cebola debaixo do arroz que o outro tanto odeia; a gente decora os poemas e músicas favoritos um do outro, pra mandar pela internet ou marcar no Facebook. A gente aprende os medos, as manias e os sonhos de cada um, e também guarda as linhas e caminhos de ônibus e metrô pra chegar mais rápido na casa do outro. Isso tudo a gente faz devagar e sem perceber. Porque acabamos guardando as melhores coisas um do outro.

 

O amor faz a gente perder um pouco a vergonha. A gente se mete a cantar desafinado pro nosso amor, aprende a dançar (ou ao menos tenta), fazemos a barba, mudamos a cor das roupas, melhoramos a postura e até aceitamos escutar algumas músicas que achamos bem chatas (além de algumas que acabamos gostando e nos viciando). Então de repente você está usando aquela blusa que ganhou, toda colorida, mas nunca tinha tirado nem a etiqueta, porque o seu parceiro disse que você fica lindo nela. É claro: pra ela/ele sempre somos lindos, mesmo que às vezes sejamos, como diriam no Pará, um “estraga mãe” de tão feio.

 

Mas o amor também rima com dor. E ele pode nos fazer sofrer. Às vezes, é preciso entender que nem somente o amor ser recíproco o deixa imune de dor. Porque a vida é um conjunto de sentimentos e acontecimentos, e nem todos (na verdade, quase nenhum) podemos prever ou até mudar. As nossas vidas não dependem apenas de nós mesmos. Dizer que construímos nosso próprio destino e que o amor sempre pode tudo é lindo, mas não são verdades. A gente caminha por uma estrada escura e sem saber onde vai dar. Às vezes as curvas nos levam pra lugares lindos, mas outras também nos trazem tristeza.

 

Amar é saber a hora de deixar ir. Por um dia, por uma semana, por um mês, pra sempre ou pelo tempo que for preciso. Não é por não amar, mas por amar demais que muitas vezes precisamos deixar o outro ir. Pra onde ele vai? Pra outra pessoa? Pra outro lugar? Será que ele volta? A gente nunca sabe. A gente não tem como saber. A gente, que ama mesmo, apenas pode aceitar que nem sempre seremos a felicidade do outro naquele instante. Pode ser, por tantos motivos, que seja preciso se separar agora, pra que daqui a um tempo vocês voltem e possam tentar ser felizes de novo. O amor é dúvida também, e nem sempre certeza total.

 

Quanto tempo isso tem de durar? Quem sabe, né? Ninguém. Mas quando se ama, se espera. Não eternamente, nem por um dia só. Apenas se espera. Porque o amor faz a gente perder o tempo, a noção das coisas e a cabeça. Pra quem ama, estar longe um dia é o mesmo que estar longe um ano: a saudade começa quando pensamos em nos separar dos nossos amores. Seja por uma hora ou uma vida.

 

E, pra quem ama, se tiver de esperar um tempo que não pode ser medido, tudo bem: o amor espera. Machuca, dói, faz sofrer, chorar e querer desistir. Mas toda a dor parece ir embora quando o amor volta.

 

Às vezes o amor volta, às vezes não. Não dá pra saber. Ninguém pode garantir que nenhum amor sobreviverá a nada, seja a uma briguinha ou a uma separação de anos. Ambos podem durar, e ambos podem se desfazer. Mas em todos os casos o amor fica guardado pra depois, em lembranças boas e ruins, em dias bons e ruins, em manhãs de domingo, em noites de sábado e em tardes em tantos outros dias.

 

Isso não é fantasia ou sonho; é apenas o (in)perfeito amor.

 

O que, na prática, podem ser as mesmas coisas.

 

Abraços.