O amor nem sempre é o suficiente.

O amor é o sentimento mais complicado que tem. Por isso escrevemos tanto sobre ele e ainda assim não se esgotam as palavras. É o sentimento mais complexo e bonito que existe. Onde há amor há felicidade. Mas também há dor. E não porque o amor seja ruim, mas porque, às vezes, ele encontra barreiras pra poder existir. E nessas horas percebemos que palavras como “reciprocidade” ou ideias de que o amor pode tudo não são tão fortes assim.

 

O amor pode cansar, porque ele é rotina, e não apenas bons momentos. Ele é compreensão, parceria e cuidado. A gente se importa com quem ama, e demonstra que estamos ali sempre pela pessoa. É claro que nem sempre poderemos estar pessoalmente, ou até fazer de tudo que gostaríamos. Às vezes nem sequer poderemos fazer a pessoa feliz naquele dia ou em tantos outros. A gente tenta, e tenta bastante, quando ama mesmo; e nem sempre conseguiremos fazer nosso parceiro feliz. Mas o amor tem dessas coisas. Ele não é perfeito.

 

O amor se constrói todos os dias. É difícil dizer que se ama alguém logo de cara. Acontece, claro, mas acho difícil. A gente o molda nos nossos pequenos atos e manias, e deixamos lembranças dele por aí, como fotos num álbum. A gente elege um bar favorito, onde mais costumamos ir; a gente lembra das comidas que o outro não gosta, pra, só de brincadeira, colocar aquela cebola debaixo do arroz que o outro tanto odeia; a gente decora os poemas e músicas favoritos um do outro, pra mandar pela internet ou marcar no Facebook. A gente aprende os medos, as manias e os sonhos de cada um, e também guarda as linhas e caminhos de ônibus e metrô pra chegar mais rápido na casa do outro. Isso tudo a gente faz devagar e sem perceber. Porque acabamos guardando as melhores coisas um do outro.

 

O amor faz a gente perder um pouco a vergonha. A gente se mete a cantar desafinado pro nosso amor, aprende a dançar (ou ao menos tenta), fazemos a barba, mudamos a cor das roupas, melhoramos a postura e até aceitamos escutar algumas músicas que achamos bem chatas (além de algumas que acabamos gostando e nos viciando). Então de repente você está usando aquela blusa que ganhou, toda colorida, mas nunca tinha tirado nem a etiqueta, porque o seu parceiro disse que você fica lindo nela. É claro: pra ela/ele sempre somos lindos, mesmo que às vezes sejamos, como diriam no Pará, um “estraga mãe” de tão feio.

 

Mas o amor também rima com dor. E ele pode nos fazer sofrer. Às vezes, é preciso entender que nem somente o amor ser recíproco o deixa imune de dor. Porque a vida é um conjunto de sentimentos e acontecimentos, e nem todos (na verdade, quase nenhum) podemos prever ou até mudar. As nossas vidas não dependem apenas de nós mesmos. Dizer que construímos nosso próprio destino e que o amor sempre pode tudo é lindo, mas não são verdades. A gente caminha por uma estrada escura e sem saber onde vai dar. Às vezes as curvas nos levam pra lugares lindos, mas outras também nos trazem tristeza.

 

Amar é saber a hora de deixar ir. Por um dia, por uma semana, por um mês, pra sempre ou pelo tempo que for preciso. Não é por não amar, mas por amar demais que muitas vezes precisamos deixar o outro ir. Pra onde ele vai? Pra outra pessoa? Pra outro lugar? Será que ele volta? A gente nunca sabe. A gente não tem como saber. A gente, que ama mesmo, apenas pode aceitar que nem sempre seremos a felicidade do outro naquele instante. Pode ser, por tantos motivos, que seja preciso se separar agora, pra que daqui a um tempo vocês voltem e possam tentar ser felizes de novo. O amor é dúvida também, e nem sempre certeza total.

 

Quanto tempo isso tem de durar? Quem sabe, né? Ninguém. Mas quando se ama, se espera. Não eternamente, nem por um dia só. Apenas se espera. Porque o amor faz a gente perder o tempo, a noção das coisas e a cabeça. Pra quem ama, estar longe um dia é o mesmo que estar longe um ano: a saudade começa quando pensamos em nos separar dos nossos amores. Seja por uma hora ou uma vida.

 

E, pra quem ama, se tiver de esperar um tempo que não pode ser medido, tudo bem: o amor espera. Machuca, dói, faz sofrer, chorar e querer desistir. Mas toda a dor parece ir embora quando o amor volta.

 

Às vezes o amor volta, às vezes não. Não dá pra saber. Ninguém pode garantir que nenhum amor sobreviverá a nada, seja a uma briguinha ou a uma separação de anos. Ambos podem durar, e ambos podem se desfazer. Mas em todos os casos o amor fica guardado pra depois, em lembranças boas e ruins, em dias bons e ruins, em manhãs de domingo, em noites de sábado e em tardes em tantos outros dias.

 

Isso não é fantasia ou sonho; é apenas o (in)perfeito amor.

 

O que, na prática, podem ser as mesmas coisas.

 

Abraços.

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