XIX Crônica: Da janela do ônibus.

Depois de passar alguns dias na casa de um amigo, Haroldo pega o ônibus de manhã cedo de volta para o Rio de Janeiro. A viagem é tranquila, apenas um pouco longa. Ele senta-se quase sozinho no veículo e aproveita a vista das ruas numa bela manhã de domingo.

 

Da janela ele vê um filho acompanhando a mãe na feirinha. Ele carrega algumas frutas e vários legumes pra ela, que parece bem cansada e fraca. Ela dá ordens a ele, que obedece sem fazer muitas caretas. Batem boca uma hora, mas não brigam de fato. E no fim, já esperando pra entrar na van, ele dá um beijo e um abraço nela. Entram e partem.

 

Mais à frente enxerga homens sentados na frente de um bar, já fechado. Eles têm, entre si, um litrão de cerveja pela metade e uma cachaça. Eles tomam juntos a cerveja, que acaba rapidinho. Um deles puxa a outra bebida pra si, enche um copinho e oferece ao parceiro. Eles conversam muito, bebem, riem alto e se divertem. Apontam para qualquer direção enquanto falam de tudo. Um deles tenta levantar, mas cai. O outro ri. Eles se xingar e riem mais ainda.

 

Depois de algumas quadras, Haroldo vê um grupo de jovens, gente da idade dele praticamente, virados depois de alguma festa. Mal conseguiam caminhar direito, e a visão devia se confundir em meio ao álcool no sangue e à fumaça de cigarro que alguns deles fumavam. Um casal começou a se beijar, sendo deixados pra trás por alguns minutos pelos amigos. Vendo a brincadeira feita, os dois rapazes pararam e, de mãos dadas, continuaram a seguir o grupo.

 

Quando parou no sinal, Haroldo viu pela janela um rapaz andando apressado. Ele tinha consigo uma sacola transparente, a qual dava pra ver o que tinha dentro: chocolates e doces em geral. Nos olhos do rapaz, animados e nervosos, dava pra ver que ele estava com pressa. Ele sumiu e foi reaparecer alguns quarteirões à frente. Ele havia encontrado uma mulher. Eles se olhavam de uma forma apaixonante, rindo como bobos que deviam ser. E ser bobo, nesse caso, é a melhor coisa possível.

 

Ele entregou a ela a sacola. Se beijaram apaixonadamente, riram juntos e ficaram abraçados por alguns longos minutos. Haroldo não viu o que fizeram depois. O ônibus continuou seu caminho, e o casal continuou seu amor.

 

Viu então, em frente a um restaurante, um homem almoçando. Era cedo, mas ele já comia. Estava sozinho, apenas com seu prato. Seu rosto estava baixo, cansado e sereno. Ele comia como se não sentisse gosto, como se fosse apenas pra não morrer. Bebia água como se não tivesse nem o gosto de matar a cede. Não esboçava nenhuma emoção sequer.

 

Atravessou a ponte de volta para o Rio de Janeiro. Ali, pensou em tudo que viu. Sentiu saudades de várias coisas, e até sentiu os olhos ficarem marejados. O ônibus ainda estava meio vazio. O sol da manhã do domingo entrava pela sua janela, sem filtro ou perdão. Inundava seus olhos, fazendo-os brilhar ainda mais. E ele sentiu, dentro de si, tudo aquilo de novo. Saudades, tristeza, culpa e amor. Todos juntos. Como, em muitos casos, eles costumam andar.

 

Finalmente chegou ao seu destino. Desceu, viu sua casa e caminhou pra ela. Mas sem antes ver, do outro lado do quarteirão, uma senhora se despedindo de um senhor. Este entrava no ônibus. Ela ficava. Ambos sorriam. E Haroldo não segurou nem mais um segundo o choro.

 

 

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