II Crônica: A caminhada

Um homem anda pelas ruas escuras do Rio de Janeiro a caminho de casa. É tarde, por volta de uma hora da manhã, e ele está cansado. Dobra uma esquina, pisa numa poça d’água, mas nem diminui o ritmo, que já era, na verdade, bem moderado. O frio não lhe incomodava tanto, mas mantinha-se agasalhado dentro de seu simples casaco preto. Atravessou mais uma rua, olhando para se certificar de que não vinha nenhum carro.

A cada passo sua mente parecia mais perturbada, o que lhe fazia lembrar onde estava há pouco: uma festa entre conhecidos e alguns poucos amigos. Ainda tinha em seu olhar pesado certa quantidade de álcool, mas nada muito em excesso, apenas o suficiente para fazê-lo cambalear entre um passo e outro, e ter sua mente longe de si, vagando por outras ruas além das quais ele próprio conhecia.

Olhou para trás, à procura de alguma figura suspeita que pudesse lhe representar algum tipo de ameaça. Para sua sorte, nada que lhe despertasse preocupação foi visto, então continuou. Momentos da reunião na qual estava horas antes vinham à sua mente, como imagens jogadas ao acaso sem nenhum tipo de aviso.

Viu um instante em que enchia seu copo com alguma bebida, provavelmente vinho, e brindava com uma pessoa que conhecera na ocasião. Não lembrava exatamente seu nome, mas, de fato, isso não lhe importava. Para ele, era mais uma daquelas pessoas que se conhece por educação e se esquece por convenção. Depois lhe veio o rosto de um amigo que passou pelo canto de uma sala, adentrando ainda mais o local onde se realizava o pequeno evento. Não trocaram palavras na cena que aparecia na cabeça confusa e pesada do homem.

Chegou ao fim de uma rua e encontrou a praia. Olhou para a esquerda e viu seu pequeno prédio. Resolveu, por algum motivo, ir até a areia e caminhar por ela até sua casa. Era um caminho um pouco mais longo, mas, no fim, mais prazeroso para ele. Atravessando a rua até a praia, olhou, já do outro lado, para cima e viu poucas estrelas e uma lua quase totalmente coberta pelas nuvens carregadas. O céu ainda se escondia devido à chuva que durava já dois dias inteiros, oscilando entre verdadeiros temporais e uma inofensiva garoa.

Pisou na areia fofa e gelada e caminhou, bem mais devagar agora. Outras imagens vieram ao seu encontro: um comentário sobre o preço da gasolina e o excesso de impostos que seriam cobrados nos próximos dias; risadas histéricas ao fim de uma piada contada entre hálito embriagado e voz fanha; pratos de comida abandonados em cima de uma mesa; passos e vozes ao redor; tantas coisas que não poderia (e disso ele tinha certeza) lembrar-se na manhã seguinte.

Porém, o que mais lhe deixou curioso, foi um sentimento incomum. Parou de andar e virou-se para o mar. As ondas estavam fracas e o ambiente silencioso, perfeito para pensar e refletir alto. E foi isso que ele fez ao perceber que sentia algo o qual não conseguia identificar. Leve tontura seguida por dores de cabeça brandas lhe tiraram a concentração por minutos, fazendo-o buscar um lugar para se sentar. Sentou ali mesmo na areia.

Ainda olhando para a água salgada que beijava a areia, sentiu novamente o sentimento estranho. Talvez fosse apenas o que ingerira anteriormente, mas não era isso, e ele sabia. Depois de ponderar bastante, chegou à conclusão de que aquilo que sentia era um sentimento de fato, e não um mal estar causado por álcool. Sentia-se sozinho naquele instante, cercado de lembranças e um vento frio. Seu olhar pesava, mas não era de sono. Sua mente divagava, mas ele não se importava tanto mais.

Algumas, e últimas, imagens apareceram novamente. Um amigo lhe dando um abraço de despedida, uma ida ao banheiro, e o sorriso de uma menina. Depois, mais nada lhe tocou o olhar, e ele, ainda meio tonto, levantou devagar. Respirando fundo, reiniciou sua caminhada para casa. Ainda sentia a sensação de coração inóspito, e o vento balançou seus curtos cabelos para trás, para frente e para trás de novo.

Ele pegou o elevador, abriu a porta de casa, caminhou até o quarto, parando antes no banheiro para lavar o rosto, e enfim se jogou na cama. Porém, mesmo em casa, a sensação ainda lhe perseguia. Agora não estava tão forte, mas ainda assim ela estava ali, espreitando e cutucando sua paz. Custou, mas enfim, depois de tanto se debater em pensamentos, encontrou os sonhos que tanto desejava.

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I Crônica: O dono do bar

Por volta das seis da tarde, um boteco qualquer em Copacabana já está cheio. Há muitos homens ali, e nenhuma mulher. Todos já com quarenta anos adiante, enchendo seus copos com bebidas cada vez mais baratas. Conversam entre si sobre tantas coisas que não saberiam enumerar ao fim da noite. Um deles, porém, se sente menos alegre do que os demais. O dono do local, que a cada cinco minutos enche novos copos limpos e sujos.

Ele escuta, como todo dono de estabelecimentos do tipo, as mais diversas histórias. A maioria delas gira em torno de futebol e mulheres, e em ambos os casos, majoritariamente, há desgraças envolvidas. Um time de um dos porres perdeu por azar, ou culpa do juiz, e não faltam insultos para servirem de adjetivos ao suposto culpado do resultado. A mulher de outro não lhe largava, ficava lhe importunando dia e noite, fazendo com o que ele passasse cada vez mais tempo fora de casa, na companhia de seus amigos e, digamos, outras companhias menos cristãs, como é dito pelo próprio autor das reclamações, que é respondido com risadas dos companheiros de copo. E o dono ouve tudo.
Ao fim da noite, saberá tantas coisas que terão de ficar com ele, pois todos esquecerão o que disseram antes de irem dormir embriagados.

O tempo vai passando, mais pessoas chegam, outras vão embora, e mais histórias chegam aos ouvidos inchados do anfitrião, como ele é apelidado pelos homens que frequentam o local. Horas passaram, e chega o momento de fechar o boteco. Há uma singela despedida entre os homens, que agora retornam aos seus lares, para os braços de suas mulheres, ou, para alguns, apenas para o conforto de suas camas. O dono do bar, porém, os olha pensativo. Pensa em suas vidas ruins, nas tristezas, nas mentiras, nos boatos, nos sentimentos e em tudo que ouviu naquelas horas intermináveis. Entretanto, apensar da repulsa, o que ele sente é inveja, pois aqueles homens, diferentemente dele, conseguiam se sentir felizes por alguns instantes. Nem que fosse por meio de um pouco de bebida, eles conseguiam. Era, na cabeça dele, a única mentira que ele contaria com prazer a si mesmo.

Pouco antes de fechar o local, ele se senta no balcão, pega um copo sujo, joga uma água rapidamente, e o deposita duas doses de uísque barato. Olha aquele líquido avermelhado, meio rubro, e vê as histórias que ouviu hoje, e se sente pior ainda. Sozinho, apenas com o som dos carros lá fora e do farfalhar de folhas das várias árvores do bairro, ele toma um gole sem gelo daquela bebida amarga que rasga tudo que encosta dentro dele. A sensação é boa, mas o homem sabe que é falsa. Ele reflete sobre qualquer coisa enquanto espera o momento de tomar o resto de uma só vez, para assim poder sair dali e começar, da mesma forma que os outros homens, seu caminho solitário para casa.

Olha o copo, fitando o seu singelo reflexo distorcido nele, imaginando se aquilo vale realmente a pena, ou se era só uma tentativa fracassada de parar de sentir pena de si mesmo. No fim, ele releva, pois sabe que, no fim, é da natureza humana se sentir assim, e buscar se confundir mentalmente, julgando ser a forma ideal de se esquecer dos problemas que assolam cada esquina, cada olhar, cada pensamento e cada palavra que as pessoas escutam, pensam, olham e veem. Toma em sua mão o copo, o ergue sozinho e sente o líquido tocar-lhe os lábios e descer pelo caminho já conhecido. Tosse duas vezes e depois, já cansado, abandona o copo ali no balcão, ainda com o cheiro de álcool emanando, e fecha a porta do local. Sem olhar para trás, ele caminha pelas ruas escuras, sentindo o vento frio lhe guiar e seu pensamento lhe acalantar.

*

P.S.: esse texto faz parte de uma categoria do blog que se chama “Crônicas”. Nela irei postar histórias curtas, semi reais, abordando o cotidiano do Rio de Janeiro, sob um olhar muito mais focado nos sentimentos que estão latejando nas pessoas que vivem nessa cidade. “O dono do bar” foi o primeiro, e conta uma situação extremamente comum do bairro de Copacabana (e da cidade como um todo). É claro que, por não serem totalmente verídicos, os episódios retratados aqui são mais metáforas do que crônicas propriamente ditas. Mas, mesmo que sendo por meio de uma visão mais pessoal, acredito que muitos vão entender o que está escrito aí em cima, e perceber que muito se pode tirar de um simples olhar curioso e irreverente (sim, eu gostei dessa frase).

Abraços.

O Espírito Aventureiro

Sinceramente, não sei se devia escrever sobre isso agora. Não ainda, pelo menos. Fico pensando se ainda é cedo demais, se preciso amadurecer as ideias ou simplesmente deixar a mente fluir depois de mais um tempo. Mas, no fim, resolvi escrever sobre esse tal “espírito aventureiro” que dá nome a esse texto.

Trata-se de uma expressão que surgiu há pouco tempo, numa conversa entre mim e um amigo que mora aqui no Rio e que veio de Belém pelos mesmos motivos. Palavra vem, palavra vai, e de repente ele (ou eu; nem lembro, pra ser sincero) soltou essa expressão: “espírito aventureiro”. Se tratando de uma conversa solta, pode soar meio sem sentido, mas no assunto em questão fazia todo sentido. Falávamos justamente sobre a recente experiência de deixar o lar.

Imagino que seja o sonho de muita gente, principalmente entre aquelas pessoas que estão nos seus quinze a vinte e poucos anos, quando ainda moram na casa dos pais ou de outro parente. Logo de cara é incrível pensar em arrumar as malas, traçar um rumo, um destino para se viver, estudar (ou tentar, né?), conhecer novos lugares, pessoas, sair da rotina já bem conhecida e desbravar novos mundos e horizontes. Isso é o maldito “espírito aventureiro”! É quando se quer voar acima de todos os lugares pelos quais já se voou.

Confesso que foi uma das melhores decisões, e provavelmente a mais difícil também, a de seguir um sonho além do meu quarto, do meu bairro e da minha cidade. Mas antes que se pense que foi tudo lindo, eu digo logo que não foi. A semana que antecedeu a partida, que ocorreu no fim de fevereiro, foi algo que não desejo a ninguém, nem aos remistas. Muito choro e saudades antecipadas e após a despedida. Foi duro, como toda grande mudança, mas a gente se acostuma com o tempo.

Mudar assim, penso, é algo muito bom. Diria até necessário, se me perguntassem. O ser humano, em sua essência, é um ser curioso. Ainda bem, pois se não fosse, entre outras milhares de coisas, eu não estaria escrevendo isso, pessoas não estariam lendo e assim por diante. E acho que quando essa curiosidade começa a transbordar, chega a hora tomar uma iniciativa. Não é necessário manual de instrução nem nada, apenas vontade. Se houver vontade, aí vai acontecer.

Junto de mim, outros amigos, que compartilham o mesmo espírito, colocaram as mochilas e instrumentos musicais (curiosamente, todos eles tocam algum…) nas costas e partiram para novos lugares. E, além do espírito, eles compartilham as mudanças e experiências. No começo, tudo lindo: liberdade e tudo mais. Mas depois de um tempo, curto ou não, percebe-se que não haverá alguém para lhe acordar de manhã cedo para ir ao trabalho, universidade, escola ou o que for. Não terá alguém para preparar seu jantar e leva-lo ao seu quarto, enquanto você fica ali deitado sem fazer nada. E, o pior, não haverá alguém para lhe dizer um “boa noite” sincero. Puta merda! Isso faz falta, sim. As coisas simples assim fazem falta.

Quando se faz isso, sai do ninho, deve se ter em mente que estaremos sozinhos, tendo de agir como um adulto responsável até que nos tornemos um de fato. E não é fácil aprender a se virar. Ainda estou aprendendo, admito, e é uma estrada árdua, mas prazerosa. Aprendemos mais vivendo sozinhos sobre a vida e como ela é na realidade do que dentro de casa, sendo cercados por mimos e tudo o que queremos a um esticar de mão ou grito como “Mãe! Pega uma água pra mim?!”. Aprendemos a cometer erros e consertá-los sozinhos, e com isso fortalecer ainda mais as cicatrizes e marcas de guerra. Aprendemos que a vida não é tão fácil e simples como achávamos antes. Isso leva tempo.

Mas é algo que vale a pena, sem dúvidas. Não falo isso romantizando nem nada, mas sim como uma verdade. A gente aprende a ver o mundo de outra forma; aprendemos a olhar pela janela do nosso quarto e ver pessoas que nunca tínhamos visto antes. Aprendemos a cuidar mais de nós mesmos (pasmem, já sei fazer café sem cafeteira elétrica). Aprendemos a ter responsabilidades sobre as próprias ações, sabendo que não se deve fazer o que quiser toda hora, senão as chances de acabar em merda se tornam cada vez maiores. E sentimentos como saudade, tristeza e melancolia realmente começam a se tornar mais frequentes e reais; mas tudo isso faz parte dessa jornada, deixando ela cada vez mais atraente e desafiadora.

Não escrevo isso como alguém que realmente sabe de tudo sobre esse assunto. Moro longe de casa há singelos oito meses incompletos (que, em alguns deles, me senti como nos longos e intermináveis invernos de Game of Thrones), e ainda não conheço nem um décimo dessa cidade intrigante que se chama Rio de Janeiro. Entretanto, venho falar aqui porque sei que muitos dos que leem isso têm dentro de si um espírito aventureiro latejando, tímido ou que ainda não se mostrou, mas que está pronto para gritar e explodir, de uma forma boa.

Antes de arrumar as trouxas e os mapas surrados, é importante ter certeza do que se espera, mesmo que, no fundo, nunca saberemos o que nos espera do lado de fora da casa se não abrirmos a porta e sentirmos o vento bater em nossos rostos enquanto caminhamos para frente. Talvez, no fim, se deva fazer igual Bilbo e, mesmo já sabendo dos perigos e possíveis quedas, chutar o balde e sair correndo pela porta gritando “I’m going on an adventure!”. E, nos momentos de fraqueza, recorrer àqueles que estarão sempre nos apoiando, mesmo que longe fisicamente; e lembrar os motivos que nos fizeram, e fazem, voar mais alto do que já havíamos voado antes.

Abraços.

O início, afinal.

Para começar, o termo “caboco” está certo sim. Muitos podem até confundir com “caboclo”, mas não, não é a mesma coisa. A palavra que dá nome a esse blog é uma expressão usada quase que apenas no Norte do país, mais precisamente nos estados do Pará e Amazonas. Significa, entre muitas coisas, algo que se assemelha ao “caipira” ou “sertanejo”, mas é muito mais usado do que esses dois, podendo se referir a uma pessoa que não é, necessariamente, do interior. Infelizmente, na maioria das vezes é utilizado de forma pejorativa. Mas aqui o termo é respeitado! Aqui, me refiro a vocês como um puro “caboco” , vindo do interior, dos rios e matas que cercam o paraíso pouco aproveitado que é o meu Pará. Hoje moro no Rio de Janeiro, mas as raízes são fortes demais. Ainda bem, né?

Criei esta página pois senti a necessidade. Não de me tornar alguém melhor nem nada, mas sim de poder expor algumas coisas que escrevo. Desde os tempos longínquos dos meus doze anos de idade eu já rabiscava, no computador, algumas coisas. Cheguei a tentar escrever um livro (estava lendo “Percy Jackson e Os Olimpianos” na época e senti que podia criar meu próprio herói adolescente), mas como eu disse, apenas tentei. Na verdade, nem sei se aquilo chegou a ser uma tentativa de fato ou só algumas páginas no Word. Com o passar do tempo, fui criando mais afinidade e gosto pelas palavras. Os primeiros poemas surgiram com os anos, e hoje já possuo meus simples, mas singelos, versos e prosas anotados em vários cadernos que carrego comigo para tudo quanto é lado.

Embora não ache o que escrevo tão bem quanto o que as pessoas que me leem dizem (sem falsa modéstia; odeio isso, por sinal), resolvi começar esse blog mais para poder compartilhar mais desse meu amor pela escrita com indivíduos que não conheço, e saber se os que leem meus rascunhos da vida realmente falam a verdade ou são apenas bons amigos. E, claro, com isso, melhorar ainda mais minha prática, estender olhares e horizontes e, quem sabe, agradar alguém que teve um dia chato e quer ler algo não muito elaborado, mas agradável, em algum lugar da internet. Pode passar aqui, ok?

Pretendo, pelo menos, uma vez por semana postar algo. O curto tempo talvez não dê margem para um texto elaborado e tudo mais; entretanto, a ideia não é bem essa. Não sou, e nem pretendo exatamente ser, alguém que se mostre superior aos leitores, use termos absurdamente complexos e desnecessários, ou que crie uma aura intocável. De intocável, só o filme do Brian De Palma; o resto não quero pra mim. Sou apenas um cara que gosta de escrever e quer, à troco de nada, compartilhar esse gosto com outras pessoas. E estarei disposto a ouvir críticas (de preferência as construtivas, certo?) sempre, pois preciso delas pra viver.

Por fim, já usando esse começo de último parágrafo clichê, eu digo que será um prazer conversar com aqueles que aqui passarem de vez em quando. Sintam-se à vontade para me mandar emails (já me sentindo importante, puta merda…) sobre qualquer coisa: dicas de posts, críticas, um simples “oi” ou até spam (mentira, não façam isso, sério), mas sem vergonha nem nada. Sou humano, assim como vocês.

Abraços, e até as próximas postagens.