Nem sempre somos tão felizes.

Há pessoas que conseguem, sim, ser felizes na maior parte do tempo. Pessoas alto astral, sorridentes, que encontram ânimo pra acordar e pensar “hoje o dia vai ser bom” ou coisas assim. Pessoas que conseguem lidar bem com sentimentos, na medida do possível, além de terem sempre a capacidade de “querer ser feliz” e, com isso, conseguirem. Mas nem todo mundo é assim. Nem todos conseguem direito.

 

Porque felicidade, pra essas últimas pessoas, é uma construção sem planejamento. É quase que uma questão de pura sorte. Seria tão bom, tão mais simples e muito mais gratificante acordar sempre radiante ou, ao menos, querer estar radiante. Mas acontece que, na maior parte do tempo, acordar pode já se tornar por si só um fardo. Não por preguiça ou por noite mal dormida; mas porque dentro do peito a bagunça é tão grande que a cabeça nem o resto do corpo funcionam direito. Então ficar ali deitado parece mais fácil (e, para estas pessoas, realmente é).

 

Ah, seria maravilhoso, imagino, poder ler algo como “se valorize”, “tenha mais positividade”, “não seja pessimista” ou “ter amor próprio é a melhor forma de ser feliz” e conseguir internalizar isso tudo. Mas às vezes esse tipo de coisa parece apenas um conjunto de palavras vazias e meio banais. Não entra na cabeça sempre que é só a gente querer ficar bem que tudo vai melhorar. De fato, talvez o início do processo seja isso: perceber que estamos infelizes e tentar mudar. Mas o “tentar mudar” é mais difícil pra alguns. É difícil mesmo. Simplesmente querer não resolve muita coisa. É como imaginar que um dia as coisas melhoram porque tem de melhorar. As coisas nunca “tendem” a melhorar; são somas de ocasiões, sorte, azar, oportunidades, ajuda, paciência e perseverança. Principalmente para pessoas que não são “felizes por natureza” (se é que isso existe mesmo)

 

Forçar a felicidade pode ser que funcione para algumas pessoas, mas para outras não. Tentar gostar do trabalho chato, tentar gostar de uma pessoa, tentar acreditar que o universo vai nos trazer coisas boas não ajuda. Talvez pela crença de que nada acontece porque tem de acontecer, e sim pelo acaso, as coisas sejam mais simples: nada tem de ser bom ou ruim, não importa o quanto você queira que as coisas sejam boas, por exemplo. As coisas simplesmente são daquela forma, assim como algumas pessoas simplesmente são desse jeito.

 

É claro que se relacionar com pessoas de bem com a vida, sempre bem pra cima, que dão aquele “bom dia” sorridente em plena segunda feira de manhã cedo é mais prazeroso. Eu mesmo convivo com pessoas assim. Acontece que nem todos são dessa forma. Nem todo mundo consegue.

 

Ter um amigo, se apaixonar ou ser pai/filho de alguém que seja mais “triste” ou não tão absurdamente alegre sempre pode ser cansativo. Afinal, pessoas assim tendem a ser bastante sentimentais, e lidar com sentimentos próprios nem sempre é fácil, mas ter de lidar com sentimentos dos outros é sempre mais complicado, acredito. Às vezes a vontade é que a pessoa que gostamos mesmo fique bem, que resista ao baixo astral e que sorria logo, mas nem sempre podemos fazer alguma coisa que não seja ouvir e apoiar (que são coisas extremamente difíceis, mesmo não parecendo).

 

Felicidade, ao meu ver, é algo que se constrói bem devagar. Não se deve ter pressa, porque a felicidade que vem com muita facilidade é, na verdade, frágil. E quando vier a primeira porrada ela se destrói, e depois fica ainda mais difícil de se reconstruir. A felicidade não pode estar em alguém ou alguma coisa, pois não controlamos o tempo que alguém vai ficar conosco ou quanto tempo alguma coisa pode durar. Uma pessoa pode nos abandonar por inúmeras ocasiões: pela morte, pela distância física, pelos problemas de relacionamento e pelo próprio tempo. Assim como objetos também quebram, desgastam e perdem utilidade. A felicidade não pode estar em coisas assim.

 

Talvez o segredo seja aprender a conviver com essas situações chatas. Talvez não, quem sabe? Talvez seja apenas um equilíbrio certo entre a tristeza e a alegria, para que não afundemos na dor nem fiquemos iludidos demais com a euforia. Por isso (pra mim) não é possível estar feliz do nada, porque nada que realmente dura se forma do nada. Nenhuma árvore de nasceu do nada; é preciso tempo e cautela, e um pouco de esperança, mesmo para os mais pessimistas.

 

A vida não é uma certeza, nada que faz parte dela é. Não nascemos para sermos felizes, mas também não nascemos para sermos tristes. Nem a felicidade, e muito menos a tristeza são certezas na vida. Isso não é uma visão pessimista; longe disso. É apenas uma visão de que nada é predestinado e nada tem de ser exatamente como queremos. Aceitar isso pode ser algo bom, ou até mesmo um fardo, mas isso depende de como enxergamos a vida e que sentido damos a ela.

 

Abraços.

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Nenhuma grande perda a gente supera fácil.

Não adianta seguir fórmulas. Não adianta buscar por respostas. Não há muito o que se fazer na maioria das vezes que algo que a gente gosta não faz mais parte de nós. E esse algo pode ser tanta coisa que mal sabemos, às vezes, por onde começar. Mas é fato que, em todos os casos, só uma coisa é verdadeira: se o sentimento de perda for real, então a dor é tão real quanto, e apenas (infelizmente apenas) o tempo faz a dor passar um pouco.

 

Acontece que somos acumuladores de sentimentos. Somos seres que nos relacionamos porque precisamos ou porque, ocasionalmente, aconteceu. Podemos conhecer tantas pessoas todos os dias sem querer: na escola, na fila do supermercado, caminhando na praia, numa festa, em uma viagem, num show, na academia. Passamos, esbarramos, nos encontramos e damos bom dia pra muitas pessoas sempre. Às vezes, por sorte ou acaso (que são, nesse ponto, a mesma coisa), acabamos conhecendo alguém especial pra gente.

 

Pode ser um novo amigo, um novo companheiro de caminhadas ou uma pessoa por quem nos apaixonamos naquele instante. As relações se formam sem aviso e crescem como árvores alegres. Quando percebemos já estamos cheios de flores, folhas e frutos dessas plantas, infestando nosso corpo e nos tornando uma verdadeira floresta de sentimentos bons. Os ruins, em geral, conseguimos podar bem, nos afastando daquilo que não queremos por perto de nós.

 

O problema é quando existe algo que nos faz mal, mas não queremos deixar ir. No caso, quando se faz necessária uma despedida, por assim dizer.

 

Casos como quando é hora de dizer “até logo”, sendo que essa pequena despedida não tem data para um reencontro. Cortar uma dessas árvores que, muitas vezes, já têm raízes fortes e profundas na gente dói muito. Dói como se estivéssemos mesmo cortando uma parte de nós, como um braço, uma perna ou uma parte do coração. E a dor de cortar um sentimento é enorme, que dificilmente se compara a algo físico, pois algumas feridas no corpo cicatrizam com remédios; mas essas da alma nenhum remédio conserta de verdade.

 

Os sentimentos entranham na gente. Fazem na gente sua casa, seu refúgio e seu recanto de paz. Mas às vezes a vida os obriga a saírem de dentro de nós. Então, de repente, sem nenhum maldito aviso ou carta de despacho, eles vão embora.

 

Você já não encontra com o mesmo amigo no futebol de domingo, mas sim outra pessoa, alguém com quem você não tem mais a mesma intimidade e a mesma parceria. Você já não tem mais que sair de manhã pra passear com seu cachorro, porque ele já estava velhinho demais quando partiu. Você não vê mais o seu amor do outro lado da cama, pois ele foi embora faz algumas semanas, após brigas e desgastes, e sobraram fotos de vocês pelo quarto e nas mídias do celular. Você não pode mais mandar mensagens para alguém porque, pelo bem de ambos, é melhor assim. É uma forma dos dois ficarem bem, mesmo isso parecendo irracional.

 

Às vezes é preciso ir embora querendo ficar. E isso é uma das maiores idiotices e, ao mesmo tempo, verdades que existem na vida.

 

Vamos perdendo tantas coisas durante nossos dias que às vezes desistir parece ser mais fácil. Pra quê plantar novos sentimentos se logo eles morrem e ficamos tristes? É o que muita gente pensa. Muita gente mesmo. Mas não plantar nada é pior. Viver num campo sem árvores, num jardim vazio, é bem pior mesmo. Por isso estamos sempre nos recompondo, mesmo não querendo. Vamos encontrando novos amigos, novas rotinas e novos amores, plantando novamente em novos espaços. Mas nunca nos espaços deixados por quem perdemos.

 

Isso porque é impossível substituir alguém que realmente amamos algum dia, seja a pessoa que for. Não se cura a dor de um amor com outro, pois nenhum amor é igual. São pessoas distintas, momentos e sentimentos diferentes. Nós nos acostumamos a falta, a ausência e a breve solidão. Com o tempo a ferida cicatriza, depois de tanto latejar, e então fica a marca ali no nosso corpo, como uma tatuagem que deu errado. Somos, no fim, um retalho de coisas de deram certo e coisas que deram errado, e nunca apenas um dos dois. Carregamos conosco um amor que acabou, um que espera pra nascer e um que já nasceu.

 

E não é fácil, nem nunca vai ser, se acostumar a alguma grande perda. Leva tempo. Depende de quanto espaço a pessoa tinha dentro de nós, mas isso a gente não controla. Porque tem gente que entra dizendo que vai ficar só um minuto e fica uma vida toda, mesmo depois de ir embora. Diz que só quer um fio de cabelo pra morar, mas mora num pedaço bem maior. Se acostumar a viver, pagar as contas, estudar, comer, rir e continuar a se levantar da cama todos os dias sem aquilo que estava aqui dentro, ocupando esse enorme espaço é muito, muito difícil.

 

Então não adianta se culpar por perder. Nem sempre temos culpa, e menos vezes ainda teremos chance de tentar reparar o que aconteceu. O que se pode fazer é aceitar que as coisas aconteceram e que, apesar de tudo, estamos vivos. E que, com o tempo, a ferida não dói mais tanto, e a cicatriz se torna uma marca como qualquer outra, sem sentir nada ali ou incomodar mais.

 

Abraços.

O medo de amar.

Ontem conversava com uma amigona e ela me falava de uma decepção amorosa que teve. Ela comentou que no início foi bom, mas logo foi cansando, complicando, vindo brigas e outras coisas típicas de qualquer situação parecida. Coisas que acontecem, infelizmente, com todos nós em algum momento. Então ela disse, da mesma forma que já me repetiu várias vezes passadas: “não quero mais me apaixonar”.

 

Não sei se pra ela não é dessa forma, mas eu acho essa frase muito pesada. Afinal, por quê? O que leva uma pessoa a não querer gostar de outra? De sentir frio na barriga, as tais borboletas no estômago, o suor nas mãos e a vontade de ficar olhando no perfil de alguma rede social as fotos da pessoa? Enfim, o que a leva a não querer se apaixonar? O puro medo, eu acho. E não menosprezo isso, mas me deixa triste ver que tanta gente, desde sempre, pensando dessa forma. É basicamente evitar a possibilidade de ser feliz pelo medo de dar errado.

 

“Mas se apaixonar só dá problema, porque a gente sempre sai magoado no fim. Melhor não arriscar mesmo”. Se fosse dessa forma, não devíamos sair de casa, pois podemos ser assaltados em qualquer lugar; não deveríamos tentar passar num vestibular, porque podemos ficar reprovados. Não devíamos atravessar a rua, porque podemos ser atropelados. Não devíamos tentar ser felizes porque podemos falhar e ficar tristes no caminho. Não devíamos viver, porque no fim todos morremos. E nada disso faz sentido, não? É claro que não. Porque não existe isso de “sempre vai dar errado” em nada, muito menos no amor. Não há nenhuma certeza absoluta quando se fala de amor. Agora, se negar a algo que pode te fazer bem só pelo medo de dar errado é falhar sem tentar.

 

Eu compreendo que muitas vezes não dá certo. Eu sei disso. Muitas vezes iremos nos decepcionar, perceber que a pessoa não é o que pensávamos, que ela não compartilha tanta coisa conosco como imaginávamos, que nos primeiros encontros é gentil, doce e carinhosa, mas depois se mostra grossa, distante e ruim conosco. Muitas vezes iremos amar muito alguém, mas ela pode apenas gostar da gente. Isso tudo é possível. Mas o contrário também, e isso já deveria bastar. O que acontece é que o que mais parece marcar as pessoas é a parte ruim de um relacionamento (como término, brigas, traições, coisas do gênero) quando ele também teve seus momentos alegres e incríveis, sendo curto ou não.

 

Então o que ocorre é haver inúmeras pessoas por aí se recusando a tentar pelo pavor de dar errado. Relacionamentos rasos, frases do tipo “não quero me envolver” e “não quero me apaixonar” ou “odeio o amor” e gente que corta qualquer tipo de relação que possa se tornar algo mais sério. Pessoas desistindo do amor muito antes dele sequer acontecer, abortando esse sentimento. Tudo, em geral, porque não conseguiram superar um último término ou um coração partido. Permanecendo, dessa forma, presas a elas mesmas com medo de serem felizes (e talvez tristes de novo).

 
Não é fácil superar alguém que a gente realmente amou. Leva tempo. Às vezes muito, outras vezes nem tanto e em alguns casos muito mais do que todos nós gostaríamos. Porque não é como se o amor acabasse ou morresse. Não é como se fosse um pedaço de papel que podemos rasgar e jogar fora e esquecer. Acho que a gente se acostuma a ausência, entende que as coisas aconteceram como aconteceram e que nem sempre podemos mudar isso. A gente entende que toda relação, por mais bonita que seja, pode terminar. Mas sempre deixamos algo bom daquela pessoa dentro de nós. Sempre sobra um pouco do amor que tínhamos por ela, seja em forma de admiração ou algo parecido com a gente.

 

Não julgo quem demora a superar um término, muito menos quem tenta evitar qualquer coisa nova por medo. Mas esse último caso me deixa triste, porque o arrependimento vai viver dentro do peito de quem pensa assim. Não é que precisamos de alguém sempre pra sermos felizes. Não é verdade, pois muitas vezes estaremos sozinhos. Isso não é fardo, mas sim um fato da vida: nós podemos estar sozinhos, sem ninguém para amar ou nenhum amor dentro de nós naquele momento. E ainda assim podemos ser felizes só com nós mesmos. Mas cortar a raiz do sentimento antes do amor florescer de novo mata qualquer chance de um novo jardim.

 

Amar e sofrer por amor ainda é melhor do que não sofrer por amar nunca mais. Pois o simples fato de não amar outra vez já é, por si só, um sofrimento que mal se pode aguentar.

 
Abraços.

Fábula IV: O segredo do Rei.

Havia um reino vasto mais ao sul, cercado por florestas belas e de terras férteis. Esse reino tinha um rei, que governava já há muitos anos, mais do que seu pai, rei antes dele, conseguiu. Já tinha idade avançada, mas continuava belo. Era respeitado, temido e admirado. Tinhas filhos tão belos quanto podia sonhar, além de uma esposa que lhe fazia ainda acreditar que havia amor no mundo. Era rico e poderoso, vivia em tempos de paz e sempre estava rodeado pela família. Era tudo muito bom. Mas o rei tinha um segredo.

 

Todas as noites, quando sua rainha dormia, ele levantava e ia devagar até o topo de uma de suas torres. Fazia todo o caminho sozinho e em silêncio. Quando chegava lá em cima, olhava para os céus. Normalmente, a escuridão repleta de estrelas, onde os deuses deveriam estar, lhe trazia conforto. Mas já há tempos, desde que o rei começou a ir até aquele local sozinho, o céu não era mais motivo de alegria ou algo parecido. Na verdade, ele ia ali para chorar. E todas as noites ele chorava lá de cima, para que ninguém o visse.

 

Todos os dias sua vida eram levados normalmente: sorria nos jantares, contava piadas e ria de outras, aplicava leis, ensinava os filhos e amava sua mulher incondicionalmente. E, novamente, todos o admiravam e sentiam até inveja de sua alegria. Mas por dentro era como se houvesse uma lacuna, um buraco escuro e sem preenchimento. Algo onde ele sempre tentava colocar alguma coisa, mas que sempre se consumia e, no fim, só sobrava o vazio. Mas ninguém via nada daquilo. Apenas ele, todo dia e todas as horas.

 

Depois de um tempo, cansado de tudo aquilo, foi ao encontro do sacerdote do castelo. O religioso não via o rei pessoalmente fazia logos dias, e ficou surpreso. Conversaram brevemente e combinaram de se encontrar de noite, quando todos estivessem dormindo, no topo de uma das torres.

 

Passaram-se as horas e o sol foi dormir. Eles estavam ali juntos. O sacerdote então perguntou qual era o motivo daquele encontro. O rei queria responder, mas não conseguia. Era como se seu peito estivesse mais fundo, mais dolorido e que seu coração acelerasse. Ele então começou a chorar, e o seu convidado ficou surpreso. Nunca vira seu rei em prantos. Tentou acalanta-lo, dizendo palavras amigas e reconfortantes. Mas não adiantaram muito.

 

– No fim, não sei dizer o que me deixa assim – começou o rei, soluçante – Mas sinto como se não houvesse nada dentro de mim, como se nada do que eu tenho realmente preenchesse essa ausência. O que está faltando? Você pode me dizer?

 

– Meu senhor – respondeu cautelosamente o sacerdote, com a mão no ombro do rei – Os deuses teriam de ser consultados para que eu pudesse lhe dizer com mais precisão. Porém, temo que haja algo em sua vida que lhe preocupa. Nossa rainha estaria grávida? Algum de seus filhos adoeceu? Há ameaças de fora de nossas terras? Os impostos estão sendo pagos em dia? Algo desse gênero, meu senhor?

 

Depois de uma longa pausa, o rei respirou fundo e disse:

 

– Não. Não é nada disso. Apenas acho que, como eu pensava desde meus tempos mais jovens, estou sozinho. Posso ter tudo isso que você disse, mas ainda me sinto só. Sinto como se nem ao menos soubesse responder tais perguntas sem aperto no peito. Acho que o que me diziam quando era mais novo era verdade: “nós morremos primeiro quando estamos vivos”. Sinto que meu mundo de quando era jovem está morto, e apenas uma parte menos alegre ainda vive, que é essa a qual eu vivo hoje.

 

O sacerdote não esperava por aquilo. Ficou sem palavras, apenas observando os olhos do rei, vidrados no horizonte que eram seus domínios. Pensou em dizer alguma coisa, mas sentiu que não havia nada para ser dito. Então o rei voltou ao choro e às palavras:

 

– Às vezes penso nas minhas escolhas. Fico refletindo se escolher a mulher que amo realmente me fez tão feliz assim; pois sinto que ela não me ama tanto quanto eu a amo, e se eu fiz errado em não aceitar outras pretendestes que claramente me admiravam mais, queriam estar mais comigo. Penso se ter filhos com elas não seria mais alegre, se meus dias não estariam mais completos. E se não estive tão presente na vida de amigos antigos, que estão em sua maioria mortos agora, ou distantes demais para saber se realmente vivem ainda. Não os vejo há tantos anos que nem sei o que fazem, se ainda tem alegria ou apenas sobrevivem.

 

Soluços vieram.

 

– Então penso se escolhi certo ao abandonar tantas coisas no passado. Se meus caminhos escolhidos foram certos, ou se apenas me acostumei a eles de tal forma que não faz mais diferença. Digo tudo isso, meu caro, pois em todos os dias da minha vida, não importa o tempo, havia uma parte de mim que se sentia sozinha. Como se houvesse uma voz dentro da minha mente que repetia “seu destino é a solidão”. E então as dúvidas aparecem aos montes, como corvos em corpos mortos.

 

O sacerdote disse:

 

– O senhor gostaria que eu consultasse os deuses?

 

O rei apenas respondeu, sorrindo e virando-se para o religioso:

 

– Não é necessário. Eles não sabem de nada mesmo. Pode ir, obrigado pela companhia.

 

O sacerdote fez uma reverência e começou a caminhar de volta. Porém, virou-se e viu seu senhor olhando para o céu de novo. Nessa hora, suspirou e disse:

 

– A vida, meu senhor, é por si só triste. O sentido dela é dado por nós, que pode vir de cima ou de dentro de nós mesmos. Talvez o senhor tenha perdido o sentido da sua. Mas isso não quer dizer que ele não possa ser achado novamente. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. Boa noite, senhor.

 

O rei ouviu isso e depois ouviu os passos indo embora. Então ficou o silêncio. Ele ouvia agora o vento batendo em sua roupa e barba longa. Escutava o coração bater rápido e depois se acalmar. Sentiu o rosto ficando molhado e uma lágrima escorrendo, e depois nada disso. Sentiu o mesmo vazio de antes, mas, de alguma forma, ele parecia um pouco menor. Um pouco menos doído. Um pouco, bem pouco, menos solitário.

 

Thays

É força em forma de calor

Em seus fortes abraços;

É quem segura nos braços

Com toda a força um grande amor

 

E que não deixa de chorar

Se for preciso

Mas nunca permite que isso

Lhe faça deixar de sonhar;

 

No seu coração cabe o que for:

Cabe saudade, mágoa, cabe quem ela quiser

Mas não importa se a queda vier

Ela sempre sabe se levantar com o amor.

 

*

 

Amigos, essa é uma nova sessão do blog: Nomes. Aqui vou postar poemas, em geral curtos, para mulheres com os mesmos nomes do título. Era algo que vinha pensando em começar há tempos, mas hoje, uma data especial pra mim, resolvi deixar de enrolar. Espero que gostem desse novo tópico.

 

Abraços.

A saudade faz parte da gente (o que é ótimo).

Hoje acordei seis e meia, mais ou menos, com o sol forte batendo na minha cara. Eu esfrego o rosto, pego os óculos para ver as horas e me culpo por não dormir mais. Então eu olho para o lado e vejo, num sofá-cama que tenho aqui, um cara deitado. Ele ainda dorme, e provavelmente vai dormir até meio dia (e até o fim do dia, se deixar). É um dos meus irmãos, o do meio, desde que a caçula nasceu. Olhando essa cena, voltei uns anos atrás.

 

Voltei para os dias em que a gente dividia o quarto todos os dias. Eu deitava na cama de cima e ele na de baixo. Ficávamos jogando travesseiros e almofadas um no outro enquanto queríamos dormir, só pelo prazer de irritar o irmão. Ficávamos, às vezes, emburrados quando perdíamos para o outro no videogame (eu nunca perdia, só quando deixava ele ganhar). Das manhãs em que ele nunca tomava café, enquanto eu ficava no meu pão com manteiga e café com leite. Das vezes em que descíamos juntos para irmos para a escola.

 

Hoje não vou mais a escola. Nem sempre tomo café com leite de manhã, não jogo mais videogame nem nada disso. Mas nesses dias em que o meu irmão (que enquanto escrevo esse texto ainda está dormindo) esteve aqui, lembrei como é dividir o quarto com alguém. Uma bagunça só, além da discussão para desligar a TV cedo pra dormir e reclamação de que está quente, sabendo que isso não vai adiantar de nada.

 

Mas o que mais me chama a atenção é que ele, nesse momento, representa toda a saudade que eu tenho de casa. E quando eu digo casa me refiro a todos os lugares e pessoas que eu amo que ficaram por Belém quando eu saí de lá. Pais, amigos e família, além de lugares específicos e momentos incríveis. Tudo isso passa por mim só pelo fato de eu estar vivendo esse momento que vivi por dezoito anos da minha vida (quatorze, porque antes esse peste aqui do lado não existia).

 

Não passarei o final do ano com a família nem com a maioria dos velhos amigos. Passarei com um dos mais antigos e eternos amigos (irmão), mais dois irmãos que a vida me deu (e que conheço desde antes do meu irmão de sangue nascer) e outros amigos que conheci aqui no Rio. Não escolhi isso, mas confesso que não fico mal. E nem é por estar no Rio de Janeiro na virada do ano, não. É por estar com as pessoas certas em momentos que nunca podemos dizer se são certos ou não.

 

O ano acaba hoje, e ainda penso, só agora nessa manhã, em tudo que aconteceu. Quase tudo, claro. Volto para o aniversário da minha mãe, em janeiro, depois parto para o Carnaval com algumas das pessoas que mais amo no mundo, aqui no Rio mesmo. Depois, em março, volto para um recesso da universidade, em Belém, e no mês seguinte é aniversário desse cara que ainda dorme aqui do lado e, ao mesmo tempo, retorno às aulas. Vem maio com dia das mães e aniversários de grandes amores. Junho quase cometo seppuku (figuradamente, claro) de tanto estresse e emocional destruído por causas diversas. Julho, no final, até os últimos dias de agosto, o ócio impera quando volto pra minha cidade.

 

Segue setembro, um mês meio triste, eu diria, mas que revejo alguns amores que moram fora, tipo em Sampa e seus interiores, e no mês seguinte passo o Natal Paraense longe do Pará. Novembro faço vinte anos sem saber direito como cheguei até aqui inteiro, e em dezembro as coisas vão caminhando devagar para o seu desfecho. São algumas coisas que eu lembro, em um ano que, talvez mais do que os outros, ficar sozinho foi uma constante. Não que isso seja tão ruim, depois de um tempo.

 

Mas, às vezes, confesso que a saudade fica mais forte. Ela nunca morre, esse é o fato. Ela só dá uma volta, um tempo, tira uma soneca, mas sempre está dentro da gente. Depois desse ano de muitas alegrias e muitas tristezas também, como sempre, espero sentir mais saudades ano que vem. Porque, no fim, saudade significa que temos falta de algo bom dentro da gente, e apenas quem foi feliz em algum momento pode sentir saudade.

 

E, apesar de tudo, eu posso dizer que sou mais saudade do que outra coisa. O que é bom, no fim, não? Meu irmão ainda dorme. Logo mais ele acorda, morrendo de fome. Vamos sair para comer juntos, em algum canto da cidade. Como nos velhos e maravilhosos tempos.

 

Abraços.

 

E um maravilhoso 2017.

O amor da sua vida talvez nunca chegue.

Tem vezes em que eu olho para casais de idosos na rua, desses que já precisam de bengalas e sustentação a mais, e me sinto alegre. Penso que os dois conseguiram, por tantos anos, permanecerem juntos e (espero) felizes. Usando essa expressão: que encontraram um no outro o amor de suas vidas; aquele com quem os dias parecem mais alegres, as coisas simples mais proveitosas e a ideia de partir menos pesada, pois a vida em si é feliz ao lado daquela pessoa. De verdade, me alegro com eles, mas penso que tiveram muita sorte.

 

Eu digo sorte, pois o amor da nossa vida pode nunca aparecer. Não está predestinado isso, em nenhum lugar. Nem destino, nem signos, nem karma, nem universo, nada disso realmente interfere no amor. Se interferissem todos viveriam um sentimento forte e verdadeiro como esse, indo da loucura até a plenitude da alegria. Pois é, nem todos têm essa sorte. Nem todo mundo vai realmente encontrar o dito amor de suas vidas. Acho até que pouca gente encontra, pra ser bem franco.

 

Pode ser que você se apaixone por alguém e viva com essa pessoa por uma parte grande da sua vida. Foram, pra você, os melhores dias que existiram e nunca existirá nada melhor. Mas, por qualquer motivo que seja, o amor acabou. Cada um recolhe suas coisas, seus pedaços que quebraram, suas lembranças boas e ruins e seguem seus rumos, um para cada lado. Então, depois de um tempo, você se depara com uma outra pessoa, que brilha mais, que lhe encara mais nos olhos, que lhe faz querer sair da cama e que diz “eu te amo” com uma sinceridade nunca antes presente na sua vida. Talvez só depois de viver um grande amor você tenha encontrado o amor da sua vida.

 

Talvez você encontre mesmo o amor da sua vida, mas nada garante que ele vai sentir isso por você também. Do seu lado virá declarações, presentes, promessas, sonhos apaixonados, poemas, canções, jantares lindos e o mais sincero amor que alguém pode ter. Porém, a pessoa para quem você está dando tudo isso nem sempre irá te querer tanto assim. Não é culpa sua, e muito menos culpa dela. Não existe culpa no amor ou na sua falta, as coisas simplesmente são assim. E vocês se despedem, com pedidos de desculpa (desnecessários), votos para que as coisas melhorem, e aquela velha frase “eu não sou bom o suficiente para você. Você merece algo melhor” ou qualquer coisa assim. Você pode ter acabado de perder o amor da sua vida, infelizmente, para uma pequena, porém dolorida, variável do mundo do “amar”.

 

É capaz de acontecer o contrário: alguém chegue para você e lhe faça crer que você é o amor da vida dela. Só que você não vê isso; não crê nisso e se sente mal. Coloca em si mesmo a culpa de não conseguir amar aquela pessoa da forma que ela te ama, pensando que será sua mágoa e sua tristeza maiores, pelo menos por agora. Mas isso faz parte, de novo. Faz parte. O amor é uma moeda jogada para cima, que tem iguais chances de acertar ou não. Se para alguém, em relação a você, caiu “amor”, pra você pode acabar não dando a mesma coisa. A vida é assim mesmo, e o amor da vida de alguém, de novo, não aconteceu.

 

Além de tudo isso, eu penso que tem muita gente que tem medo de amar. Por causa de algum trauma, da ideia de ficar preso, da sensação de que pode dar errado e coisas assim as pessoas se fecham. Se negam a tentar amar. Preferem a comodidade de parceiros diferentes a cada noite, sem precisar saber muito sobre eles, do que a profundidade de um amor de fato. Não há nada de errado nisso; cada um escolhe, sem julgar, a forma como prefere se relacionar com os outros. Apenas acho que o receio de amar é muito pior. Ter medo de sofrer por amor é muito pior do que sofrer depois de ter amado. Não conhecer o amor, sendo que ele quer sair de você, é prender um sentimento que pouca gente realmente pode conseguir.

 

É possível ser feliz sem o “amor da nossa vida”? Acho que sim. Felicidade é um conjunto de coisas, entre elas o amor. Pode ser que você conheça o amor da sua vida e o perca ainda jovem; pode ser que você nunca tenha o encontrado e, depois de anos, o encontre de repente. Pode ser, ainda, que você tenha vários grandes amores pela vida, mas nunca o “amor da sua vida”. Pode ser também, enfim, que você nunca ame de fato. Pode ser qualquer uma dessas coisas e ainda ser feliz, sim. Se ser feliz fosse simples, todos fariam a mesma coisa e seríamos eternamente felizes. Pois é, as coisas não são assim.

 

A vida pode seguir seu caminho e você chegar até a idade daqueles dois velhinhos. Pode ser que você tenha o amor da sua vida ao seu lado, e então eu direi que você tem muita sorte. Mas também é capaz de que você tenha de atravessar a rua sozinho, pois a sua metade ou já não está mais consigo, ou vocês resolveram trilhar caminhos opostos ou mesmo nunca apareceu. A questão é que, independente de companhia, a trilha deve ser percorrida. Talvez seja mais fácil caminhar com o amor por perto. Mas, novamente, nem sempre iremos ter um apoio assim para guiar e cuidar de nossos passos. Nem sempre o amor da nossa vida vai chegar. Mas a nossa vida sempre vai continuar.

 

Abraços.