O medo de amar.

Ontem conversava com uma amigona e ela me falava de uma decepção amorosa que teve. Ela comentou que no início foi bom, mas logo foi cansando, complicando, vindo brigas e outras coisas típicas de qualquer situação parecida. Coisas que acontecem, infelizmente, com todos nós em algum momento. Então ela disse, da mesma forma que já me repetiu várias vezes passadas: “não quero mais me apaixonar”.

 

Não sei se pra ela não é dessa forma, mas eu acho essa frase muito pesada. Afinal, por quê? O que leva uma pessoa a não querer gostar de outra? De sentir frio na barriga, as tais borboletas no estômago, o suor nas mãos e a vontade de ficar olhando no perfil de alguma rede social as fotos da pessoa? Enfim, o que a leva a não querer se apaixonar? O puro medo, eu acho. E não menosprezo isso, mas me deixa triste ver que tanta gente, desde sempre, pensando dessa forma. É basicamente evitar a possibilidade de ser feliz pelo medo de dar errado.

 

“Mas se apaixonar só dá problema, porque a gente sempre sai magoado no fim. Melhor não arriscar mesmo”. Se fosse dessa forma, não devíamos sair de casa, pois podemos ser assaltados em qualquer lugar; não deveríamos tentar passar num vestibular, porque podemos ficar reprovados. Não devíamos atravessar a rua, porque podemos ser atropelados. Não devíamos tentar ser felizes porque podemos falhar e ficar tristes no caminho. Não devíamos viver, porque no fim todos morremos. E nada disso faz sentido, não? É claro que não. Porque não existe isso de “sempre vai dar errado” em nada, muito menos no amor. Não há nenhuma certeza absoluta quando se fala de amor. Agora, se negar a algo que pode te fazer bem só pelo medo de dar errado é falhar sem tentar.

 

Eu compreendo que muitas vezes não dá certo. Eu sei disso. Muitas vezes iremos nos decepcionar, perceber que a pessoa não é o que pensávamos, que ela não compartilha tanta coisa conosco como imaginávamos, que nos primeiros encontros é gentil, doce e carinhosa, mas depois se mostra grossa, distante e ruim conosco. Muitas vezes iremos amar muito alguém, mas ela pode apenas gostar da gente. Isso tudo é possível. Mas o contrário também, e isso já deveria bastar. O que acontece é que o que mais parece marcar as pessoas é a parte ruim de um relacionamento (como término, brigas, traições, coisas do gênero) quando ele também teve seus momentos alegres e incríveis, sendo curto ou não.

 

Então o que ocorre é haver inúmeras pessoas por aí se recusando a tentar pelo pavor de dar errado. Relacionamentos rasos, frases do tipo “não quero me envolver” e “não quero me apaixonar” ou “odeio o amor” e gente que corta qualquer tipo de relação que possa se tornar algo mais sério. Pessoas desistindo do amor muito antes dele sequer acontecer, abortando esse sentimento. Tudo, em geral, porque não conseguiram superar um último término ou um coração partido. Permanecendo, dessa forma, presas a elas mesmas com medo de serem felizes (e talvez tristes de novo).

 
Não é fácil superar alguém que a gente realmente amou. Leva tempo. Às vezes muito, outras vezes nem tanto e em alguns casos muito mais do que todos nós gostaríamos. Porque não é como se o amor acabasse ou morresse. Não é como se fosse um pedaço de papel que podemos rasgar e jogar fora e esquecer. Acho que a gente se acostuma a ausência, entende que as coisas aconteceram como aconteceram e que nem sempre podemos mudar isso. A gente entende que toda relação, por mais bonita que seja, pode terminar. Mas sempre deixamos algo bom daquela pessoa dentro de nós. Sempre sobra um pouco do amor que tínhamos por ela, seja em forma de admiração ou algo parecido com a gente.

 

Não julgo quem demora a superar um término, muito menos quem tenta evitar qualquer coisa nova por medo. Mas esse último caso me deixa triste, porque o arrependimento vai viver dentro do peito de quem pensa assim. Não é que precisamos de alguém sempre pra sermos felizes. Não é verdade, pois muitas vezes estaremos sozinhos. Isso não é fardo, mas sim um fato da vida: nós podemos estar sozinhos, sem ninguém para amar ou nenhum amor dentro de nós naquele momento. E ainda assim podemos ser felizes só com nós mesmos. Mas cortar a raiz do sentimento antes do amor florescer de novo mata qualquer chance de um novo jardim.

 

Amar e sofrer por amor ainda é melhor do que não sofrer por amar nunca mais. Pois o simples fato de não amar outra vez já é, por si só, um sofrimento que mal se pode aguentar.

 
Abraços.

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Fábula IV: O segredo do Rei.

Havia um reino vasto mais ao sul, cercado por florestas belas e de terras férteis. Esse reino tinha um rei, que governava já há muitos anos, mais do que seu pai, rei antes dele, conseguiu. Já tinha idade avançada, mas continuava belo. Era respeitado, temido e admirado. Tinhas filhos tão belos quanto podia sonhar, além de uma esposa que lhe fazia ainda acreditar que havia amor no mundo. Era rico e poderoso, vivia em tempos de paz e sempre estava rodeado pela família. Era tudo muito bom. Mas o rei tinha um segredo.

 

Todas as noites, quando sua rainha dormia, ele levantava e ia devagar até o topo de uma de suas torres. Fazia todo o caminho sozinho e em silêncio. Quando chegava lá em cima, olhava para os céus. Normalmente, a escuridão repleta de estrelas, onde os deuses deveriam estar, lhe trazia conforto. Mas já há tempos, desde que o rei começou a ir até aquele local sozinho, o céu não era mais motivo de alegria ou algo parecido. Na verdade, ele ia ali para chorar. E todas as noites ele chorava lá de cima, para que ninguém o visse.

 

Todos os dias sua vida eram levados normalmente: sorria nos jantares, contava piadas e ria de outras, aplicava leis, ensinava os filhos e amava sua mulher incondicionalmente. E, novamente, todos o admiravam e sentiam até inveja de sua alegria. Mas por dentro era como se houvesse uma lacuna, um buraco escuro e sem preenchimento. Algo onde ele sempre tentava colocar alguma coisa, mas que sempre se consumia e, no fim, só sobrava o vazio. Mas ninguém via nada daquilo. Apenas ele, todo dia e todas as horas.

 

Depois de um tempo, cansado de tudo aquilo, foi ao encontro do sacerdote do castelo. O religioso não via o rei pessoalmente fazia logos dias, e ficou surpreso. Conversaram brevemente e combinaram de se encontrar de noite, quando todos estivessem dormindo, no topo de uma das torres.

 

Passaram-se as horas e o sol foi dormir. Eles estavam ali juntos. O sacerdote então perguntou qual era o motivo daquele encontro. O rei queria responder, mas não conseguia. Era como se seu peito estivesse mais fundo, mais dolorido e que seu coração acelerasse. Ele então começou a chorar, e o seu convidado ficou surpreso. Nunca vira seu rei em prantos. Tentou acalanta-lo, dizendo palavras amigas e reconfortantes. Mas não adiantaram muito.

 

– No fim, não sei dizer o que me deixa assim – começou o rei, soluçante – Mas sinto como se não houvesse nada dentro de mim, como se nada do que eu tenho realmente preenchesse essa ausência. O que está faltando? Você pode me dizer?

 

– Meu senhor – respondeu cautelosamente o sacerdote, com a mão no ombro do rei – Os deuses teriam de ser consultados para que eu pudesse lhe dizer com mais precisão. Porém, temo que haja algo em sua vida que lhe preocupa. Nossa rainha estaria grávida? Algum de seus filhos adoeceu? Há ameaças de fora de nossas terras? Os impostos estão sendo pagos em dia? Algo desse gênero, meu senhor?

 

Depois de uma longa pausa, o rei respirou fundo e disse:

 

– Não. Não é nada disso. Apenas acho que, como eu pensava desde meus tempos mais jovens, estou sozinho. Posso ter tudo isso que você disse, mas ainda me sinto só. Sinto como se nem ao menos soubesse responder tais perguntas sem aperto no peito. Acho que o que me diziam quando era mais novo era verdade: “nós morremos primeiro quando estamos vivos”. Sinto que meu mundo de quando era jovem está morto, e apenas uma parte menos alegre ainda vive, que é essa a qual eu vivo hoje.

 

O sacerdote não esperava por aquilo. Ficou sem palavras, apenas observando os olhos do rei, vidrados no horizonte que eram seus domínios. Pensou em dizer alguma coisa, mas sentiu que não havia nada para ser dito. Então o rei voltou ao choro e às palavras:

 

– Às vezes penso nas minhas escolhas. Fico refletindo se escolher a mulher que amo realmente me fez tão feliz assim; pois sinto que ela não me ama tanto quanto eu a amo, e se eu fiz errado em não aceitar outras pretendestes que claramente me admiravam mais, queriam estar mais comigo. Penso se ter filhos com elas não seria mais alegre, se meus dias não estariam mais completos. E se não estive tão presente na vida de amigos antigos, que estão em sua maioria mortos agora, ou distantes demais para saber se realmente vivem ainda. Não os vejo há tantos anos que nem sei o que fazem, se ainda tem alegria ou apenas sobrevivem.

 

Soluços vieram.

 

– Então penso se escolhi certo ao abandonar tantas coisas no passado. Se meus caminhos escolhidos foram certos, ou se apenas me acostumei a eles de tal forma que não faz mais diferença. Digo tudo isso, meu caro, pois em todos os dias da minha vida, não importa o tempo, havia uma parte de mim que se sentia sozinha. Como se houvesse uma voz dentro da minha mente que repetia “seu destino é a solidão”. E então as dúvidas aparecem aos montes, como corvos em corpos mortos.

 

O sacerdote disse:

 

– O senhor gostaria que eu consultasse os deuses?

 

O rei apenas respondeu, sorrindo e virando-se para o religioso:

 

– Não é necessário. Eles não sabem de nada mesmo. Pode ir, obrigado pela companhia.

 

O sacerdote fez uma reverência e começou a caminhar de volta. Porém, virou-se e viu seu senhor olhando para o céu de novo. Nessa hora, suspirou e disse:

 

– A vida, meu senhor, é por si só triste. O sentido dela é dado por nós, que pode vir de cima ou de dentro de nós mesmos. Talvez o senhor tenha perdido o sentido da sua. Mas isso não quer dizer que ele não possa ser achado novamente. Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. Boa noite, senhor.

 

O rei ouviu isso e depois ouviu os passos indo embora. Então ficou o silêncio. Ele ouvia agora o vento batendo em sua roupa e barba longa. Escutava o coração bater rápido e depois se acalmar. Sentiu o rosto ficando molhado e uma lágrima escorrendo, e depois nada disso. Sentiu o mesmo vazio de antes, mas, de alguma forma, ele parecia um pouco menor. Um pouco menos doído. Um pouco, bem pouco, menos solitário.

 

Thays

É força em forma de calor

Em seus fortes abraços;

É quem segura nos braços

Com toda a força um grande amor

 

E que não deixa de chorar

Se for preciso

Mas nunca permite que isso

Lhe faça deixar de sonhar;

 

No seu coração cabe o que for:

Cabe saudade, mágoa, cabe quem ela quiser

Mas não importa se a queda vier

Ela sempre sabe se levantar com o amor.

 

*

 

Amigos, essa é uma nova sessão do blog: Nomes. Aqui vou postar poemas, em geral curtos, para mulheres com os mesmos nomes do título. Era algo que vinha pensando em começar há tempos, mas hoje, uma data especial pra mim, resolvi deixar de enrolar. Espero que gostem desse novo tópico.

 

Abraços.

A saudade faz parte da gente (o que é ótimo).

Hoje acordei seis e meia, mais ou menos, com o sol forte batendo na minha cara. Eu esfrego o rosto, pego os óculos para ver as horas e me culpo por não dormir mais. Então eu olho para o lado e vejo, num sofá-cama que tenho aqui, um cara deitado. Ele ainda dorme, e provavelmente vai dormir até meio dia (e até o fim do dia, se deixar). É um dos meus irmãos, o do meio, desde que a caçula nasceu. Olhando essa cena, voltei uns anos atrás.

 

Voltei para os dias em que a gente dividia o quarto todos os dias. Eu deitava na cama de cima e ele na de baixo. Ficávamos jogando travesseiros e almofadas um no outro enquanto queríamos dormir, só pelo prazer de irritar o irmão. Ficávamos, às vezes, emburrados quando perdíamos para o outro no videogame (eu nunca perdia, só quando deixava ele ganhar). Das manhãs em que ele nunca tomava café, enquanto eu ficava no meu pão com manteiga e café com leite. Das vezes em que descíamos juntos para irmos para a escola.

 

Hoje não vou mais a escola. Nem sempre tomo café com leite de manhã, não jogo mais videogame nem nada disso. Mas nesses dias em que o meu irmão (que enquanto escrevo esse texto ainda está dormindo) esteve aqui, lembrei como é dividir o quarto com alguém. Uma bagunça só, além da discussão para desligar a TV cedo pra dormir e reclamação de que está quente, sabendo que isso não vai adiantar de nada.

 

Mas o que mais me chama a atenção é que ele, nesse momento, representa toda a saudade que eu tenho de casa. E quando eu digo casa me refiro a todos os lugares e pessoas que eu amo que ficaram por Belém quando eu saí de lá. Pais, amigos e família, além de lugares específicos e momentos incríveis. Tudo isso passa por mim só pelo fato de eu estar vivendo esse momento que vivi por dezoito anos da minha vida (quatorze, porque antes esse peste aqui do lado não existia).

 

Não passarei o final do ano com a família nem com a maioria dos velhos amigos. Passarei com um dos mais antigos e eternos amigos (irmão), mais dois irmãos que a vida me deu (e que conheço desde antes do meu irmão de sangue nascer) e outros amigos que conheci aqui no Rio. Não escolhi isso, mas confesso que não fico mal. E nem é por estar no Rio de Janeiro na virada do ano, não. É por estar com as pessoas certas em momentos que nunca podemos dizer se são certos ou não.

 

O ano acaba hoje, e ainda penso, só agora nessa manhã, em tudo que aconteceu. Quase tudo, claro. Volto para o aniversário da minha mãe, em janeiro, depois parto para o Carnaval com algumas das pessoas que mais amo no mundo, aqui no Rio mesmo. Depois, em março, volto para um recesso da universidade, em Belém, e no mês seguinte é aniversário desse cara que ainda dorme aqui do lado e, ao mesmo tempo, retorno às aulas. Vem maio com dia das mães e aniversários de grandes amores. Junho quase cometo seppuku (figuradamente, claro) de tanto estresse e emocional destruído por causas diversas. Julho, no final, até os últimos dias de agosto, o ócio impera quando volto pra minha cidade.

 

Segue setembro, um mês meio triste, eu diria, mas que revejo alguns amores que moram fora, tipo em Sampa e seus interiores, e no mês seguinte passo o Natal Paraense longe do Pará. Novembro faço vinte anos sem saber direito como cheguei até aqui inteiro, e em dezembro as coisas vão caminhando devagar para o seu desfecho. São algumas coisas que eu lembro, em um ano que, talvez mais do que os outros, ficar sozinho foi uma constante. Não que isso seja tão ruim, depois de um tempo.

 

Mas, às vezes, confesso que a saudade fica mais forte. Ela nunca morre, esse é o fato. Ela só dá uma volta, um tempo, tira uma soneca, mas sempre está dentro da gente. Depois desse ano de muitas alegrias e muitas tristezas também, como sempre, espero sentir mais saudades ano que vem. Porque, no fim, saudade significa que temos falta de algo bom dentro da gente, e apenas quem foi feliz em algum momento pode sentir saudade.

 

E, apesar de tudo, eu posso dizer que sou mais saudade do que outra coisa. O que é bom, no fim, não? Meu irmão ainda dorme. Logo mais ele acorda, morrendo de fome. Vamos sair para comer juntos, em algum canto da cidade. Como nos velhos e maravilhosos tempos.

 

Abraços.

 

E um maravilhoso 2017.

O amor da sua vida talvez nunca chegue.

Tem vezes em que eu olho para casais de idosos na rua, desses que já precisam de bengalas e sustentação a mais, e me sinto alegre. Penso que os dois conseguiram, por tantos anos, permanecerem juntos e (espero) felizes. Usando essa expressão: que encontraram um no outro o amor de suas vidas; aquele com quem os dias parecem mais alegres, as coisas simples mais proveitosas e a ideia de partir menos pesada, pois a vida em si é feliz ao lado daquela pessoa. De verdade, me alegro com eles, mas penso que tiveram muita sorte.

 

Eu digo sorte, pois o amor da nossa vida pode nunca aparecer. Não está predestinado isso, em nenhum lugar. Nem destino, nem signos, nem karma, nem universo, nada disso realmente interfere no amor. Se interferissem todos viveriam um sentimento forte e verdadeiro como esse, indo da loucura até a plenitude da alegria. Pois é, nem todos têm essa sorte. Nem todo mundo vai realmente encontrar o dito amor de suas vidas. Acho até que pouca gente encontra, pra ser bem franco.

 

Pode ser que você se apaixone por alguém e viva com essa pessoa por uma parte grande da sua vida. Foram, pra você, os melhores dias que existiram e nunca existirá nada melhor. Mas, por qualquer motivo que seja, o amor acabou. Cada um recolhe suas coisas, seus pedaços que quebraram, suas lembranças boas e ruins e seguem seus rumos, um para cada lado. Então, depois de um tempo, você se depara com uma outra pessoa, que brilha mais, que lhe encara mais nos olhos, que lhe faz querer sair da cama e que diz “eu te amo” com uma sinceridade nunca antes presente na sua vida. Talvez só depois de viver um grande amor você tenha encontrado o amor da sua vida.

 

Talvez você encontre mesmo o amor da sua vida, mas nada garante que ele vai sentir isso por você também. Do seu lado virá declarações, presentes, promessas, sonhos apaixonados, poemas, canções, jantares lindos e o mais sincero amor que alguém pode ter. Porém, a pessoa para quem você está dando tudo isso nem sempre irá te querer tanto assim. Não é culpa sua, e muito menos culpa dela. Não existe culpa no amor ou na sua falta, as coisas simplesmente são assim. E vocês se despedem, com pedidos de desculpa (desnecessários), votos para que as coisas melhorem, e aquela velha frase “eu não sou bom o suficiente para você. Você merece algo melhor” ou qualquer coisa assim. Você pode ter acabado de perder o amor da sua vida, infelizmente, para uma pequena, porém dolorida, variável do mundo do “amar”.

 

É capaz de acontecer o contrário: alguém chegue para você e lhe faça crer que você é o amor da vida dela. Só que você não vê isso; não crê nisso e se sente mal. Coloca em si mesmo a culpa de não conseguir amar aquela pessoa da forma que ela te ama, pensando que será sua mágoa e sua tristeza maiores, pelo menos por agora. Mas isso faz parte, de novo. Faz parte. O amor é uma moeda jogada para cima, que tem iguais chances de acertar ou não. Se para alguém, em relação a você, caiu “amor”, pra você pode acabar não dando a mesma coisa. A vida é assim mesmo, e o amor da vida de alguém, de novo, não aconteceu.

 

Além de tudo isso, eu penso que tem muita gente que tem medo de amar. Por causa de algum trauma, da ideia de ficar preso, da sensação de que pode dar errado e coisas assim as pessoas se fecham. Se negam a tentar amar. Preferem a comodidade de parceiros diferentes a cada noite, sem precisar saber muito sobre eles, do que a profundidade de um amor de fato. Não há nada de errado nisso; cada um escolhe, sem julgar, a forma como prefere se relacionar com os outros. Apenas acho que o receio de amar é muito pior. Ter medo de sofrer por amor é muito pior do que sofrer depois de ter amado. Não conhecer o amor, sendo que ele quer sair de você, é prender um sentimento que pouca gente realmente pode conseguir.

 

É possível ser feliz sem o “amor da nossa vida”? Acho que sim. Felicidade é um conjunto de coisas, entre elas o amor. Pode ser que você conheça o amor da sua vida e o perca ainda jovem; pode ser que você nunca tenha o encontrado e, depois de anos, o encontre de repente. Pode ser, ainda, que você tenha vários grandes amores pela vida, mas nunca o “amor da sua vida”. Pode ser também, enfim, que você nunca ame de fato. Pode ser qualquer uma dessas coisas e ainda ser feliz, sim. Se ser feliz fosse simples, todos fariam a mesma coisa e seríamos eternamente felizes. Pois é, as coisas não são assim.

 

A vida pode seguir seu caminho e você chegar até a idade daqueles dois velhinhos. Pode ser que você tenha o amor da sua vida ao seu lado, e então eu direi que você tem muita sorte. Mas também é capaz de que você tenha de atravessar a rua sozinho, pois a sua metade ou já não está mais consigo, ou vocês resolveram trilhar caminhos opostos ou mesmo nunca apareceu. A questão é que, independente de companhia, a trilha deve ser percorrida. Talvez seja mais fácil caminhar com o amor por perto. Mas, novamente, nem sempre iremos ter um apoio assim para guiar e cuidar de nossos passos. Nem sempre o amor da nossa vida vai chegar. Mas a nossa vida sempre vai continuar.

 

Abraços.

Questão de sorte.

Infelizmente, algumas coisas não dependem tanto da gente. Não escolhemos uma série de situações e sentimentos que fazem parte dos nossos dias. Às vezes não acordamos dispostos e só queremos estar na cama mesmo dormindo. Outros dias parecemos nos estressar demais com coisas tão pequenas, como a água quente do chuveiro não funcionar ou o cobrador do ônibus não ter troco. E às vezes nos apaixonamos por alguém que não tem nada a ver conosco, parecendo ser um “erro” até, mas que vira algo real. E nenhuma dessas coisas tem de fato explicação.

 

Ser feliz, no fundo, é uma questão de sorte. A vida é um completo acaso, em que podemos ter tudo o que queremos e, ainda assim, estarmos tristes e desanimados, ao passo que mesmo com contas pendentes e aluguel atrasado no fim do mês podemos ter disposição pra ir à praia e sorrir. Encontramos motivos aleatórios pra felicidade, mas às vezes nem os mais óbvios são capazes de nos trazer alegria. É possível que isso nos cause dúvidas; perguntas diversas dos motivos pelos quais a felicidade parece faltar no nosso dia.

 

De novo, acredito que a resposta é porque a felicidade é uma questão de sorte. Ser feliz depende de tanta coisa que nem sempre vem de nós mesmos. É uma questão de sorte escolher uma carreira em que você, apesar de todos os problemas vindos dela ou das consequências dela (salários baixos, pressão social, preconceito, etc), vai se sentir disposto, sempre, a acordar cedo (ou no horário que for) para trabalhar. É claro que nem sempre se tem vontade de trabalhar, mas a questão é fazer disso uma parte de si, e não uma tortura. É uma questão de sorte se achar nesse caso.

 

Também requer sorte ter uma capacidade de aguentar o mundo ao seu redor. Há tanta dor por aí, em cada metro que percorremos, que fica difícil sorrir sempre. Ver as desgraças alheias, que muitas vezes nem tem a ver conosco, nos pegam de jeito; nos deixam pensativos, reflexivos e, em alguns casos, desacreditados. É claro que uma hora ficamos até mesmo anestesiados com tantas coisas ruins acontecendo, mas ainda assim requer sorte para não nos deixarmos levar, por exemplo, ao ver uma mulher pedindo dinheiro segurando um bebê no colo sentada na rua.

 

É preciso ter sorte para amar. Talvez mais do que a maioria das outras situações. É necessário, pois não adianta a quantidade de amor que há numa pessoa, a enorme vontade de estar com outra, a dedicação, a preocupação e o companheirismo se, do outro lado, a outra pessoa simplesmente não sente o mesmo. E isso é mais do que uma simples “reciprocidade é o mais importante”, “é preciso haver sacrifício dos dois lados” e essas frases feitas. Amor, o mais simples e ao mesmo tempo grandioso tipo, não sobrevive se não existir nos dois lados. Simplesmente não existe mesmo. Pode ser muita coisa, mas amor não deve ser.

 

É difícil encontrar alguém que possa compartilhar esse sentimento nos instantes menos propensos. Amar sem maquiagem, sem dinheiro, sem alegria gratuita o dia todo, sem a saúde lá em cima, sem corpo tão bonito, sem todas essas coisas. É difícil. É questão de muita sorte sentir o mesmo amor que se está dando vindo de quem o recebe. É muito complicado achar alguém que você possa amar cego: sem ver o rosto, sem ver a beleza física, sem ver os olhos, sem ver nada disso; vendo apenas as coisas que fazem dessa pessoa algo além de um corpo. É questão de muitíssima sorte.

 

Com toda a certeza a felicidade, assim como a maioria das coisas subjetivas (e que requerem sorte), é muito relativa. Podemos ser felizes com pouco ou com muito. Podemos nos alegrar com coisas bem simples ou apenas com grandes atos e gestos. Tem gente que ama receber um presente de aniversário, mas outros apenas por lerem uma mensagem de algum conhecido que lembrou-se dele nesse dia já vale muito. Não há nada de errado em sentir-se feliz por motivos distintos, claro que não. Mas, por mais variadas que sejam as opções, no fundo, saber o que nos alegra e ainda por cima conseguir ter essas coisas é, em maior ou menor grau, questão de sorte.

 

Nem todos tem tanta sorte. Infelizmente. É capaz de muitos de nós vivermos com azar a maior parte da vida. Pode ser que sim, pode ser que não; é puro acaso. Mas ao mesmo tempo em que pode haver azar, a sorte pode aparecer sem nenhum aviso prévio. E de repente estaremos contentes, de bem com nós mesmos, dispostos a seguir em frente, tendo dentro de nós amor e recebendo o mesmo de fora. Mas isso, acima de tudo, de esforço e dedicação, requer sorte.

Quando perdemos um pouco da gente.

Hoje (03/12/2016) faz uma semana que um tio morreu. Naquele mesmo intervalo de sete dias, mais ou menos, morreu Fidel Castro e o mais amado time de futebol do Brasil no momento (junto de jornalistas e comissão técnica), a Chapecoense. Foram situações distintas: o líder cubano padeceu pela idade avançada, a equipe de Santa Catarina foi levada por um acidente de avião e o meu tio por inúmeras doenças e complicações que adquiriu no decorrer dos seus anos. É difícil falar da vida, mas penso que é muito mais complicado (e em momentos assim eu tenho mais certeza ainda disso) falar da morte.

 

“Pessoas morrem todos os dias”, eu leio no Facebook. De fato, isso é bem verdade. Nesse instante deve haver alguém, em alguma parte do mundo, morrendo por algum motivo. Pessoas morrem de fome, pela violência, pela doença, pelo tempo e por tantas outras coisas. A morte faz parte do ciclo biológico de tudo que tem coragem e disposição para viver. E digo isso pois estar vivo nem sempre é algo fácil, estando num mundo onde as pessoas se abandonam e se trocam por qualquer coisa que possa ser comprada, percebendo, no fim, a solidão em que suas mortes vão acontecer.

 

E é meio sobre isso que eu, nesses dias de luto, fiquei pensando por algumas horas. Sobre como a morte nos machuca tanto não pelo ato em si, mas pelo que ela representa. Quando alguém se vai definitivamente sobra a saudade, e dela deriva tudo: nostalgia, mágoa, ressentimento, tristeza e desilusão. A questão é que, apesar de ser algo normal, a gente nunca se prepara totalmente para a morte. Não existe isso. Não existe, pois a morte não nos avisa quando vai bater à porta para nos chamar.

 

Se soubéssemos não deixaríamos para a amanhã todas as coisas que podemos fazer hoje e que são importantes não apenas para nós, mas para quem nos ama. Por exemplo, hoje, você já disse a alguém que lhe ama? Quero dizer, de verdade, e não apenas o convencional “te amo” que se diz quase como “bom dia”, da boca pra fora. Já disse para um amigo, um namorado, mãe ou pai, para seu cachorro, para seu tio que o ama? Não? Talvez seja bom dizer, pois a gente nunca sabe o que acontece depois de acordar no dia seguinte. Se acordarmos.

 

Estamos tão concentrados em coisas banais que nos esquecemos de que, um dia, tudo termina. Acumulamos status, dinheiro, fama, bens materiais que nada valem, no fim das contas. Tudo isso vale bem menos do que um abraço sincero de alguém que sempre está ao seu lado, embora, muitas vezes, não mereçamos nada desse carinho. Não se dá valor para o que é de graça, essa é a triste verdade. A morte não aceita cartão de crédito nem nada disso. Não pechincha, e por isso temos a sensação de impotência perante ela.

 

Quando alguém que admiramos se vai, junto da pessoa vai algo de nós. Como disse Eliana Brum em um artigo seu: “Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é.” Penso exatamente como ela diz. Somos feitos de pessoas que viveram conosco ou que, de alguma forma, nos afetaram por estarem vivas. Por isso sofremos tanto quando alguém querido se vai, pois com ele vai uma parte de nós também.

 

Nesse caso em que me levou a escrever o texto, foi uma parte muito bonita da minha infância (a fase, sem clichê nem forçar a barra, em que eu fui mais feliz). Frequentava muito a casa dele, geralmente pra almoçar e brincar com o filho mais novo, um primo que cresceu comigo. Tenho ótimas lembranças e nenhuma ruim. Não estava por perto quando ele começou a piorar, nem acompanhei suas constantes idas ao hospital. Pra mim, não era nada tão sério. Até semana passada. Então eu percebi, quando recebi a notícia diretamente do meu avô, irmão mais velho dele, enquanto estudava violão, o quão sério era aquilo.

 

Não perdi totalmente algo de mim, pois ainda guardo muito bem e com muito cuidado as memórias e momentos passados que estive com ele. Da próxima vez que for à Belém, visitar a família, infelizmente não o verei. Só esse ano, dois dos meus tios mais queridos foram embora muito, muito antes da hora. Não vai dar pra ver eles, isso eu sei. Porém, ainda os vejo nas fotos e saudades que os dois deixaram para nós. Odeio isso de despedidas, mas confesso que nesses dois casos queria ter dito um “até mais tarde” pra eles.

 

A vida acaba muito rápido e num momento que a gente não espera. Provavelmente não teríamos feito tudo que queríamos, todos nossos planos e tudo mais se, por algum motivo, a gente deixasse essa vida amanhã. Mas, penso, mais importante do que nossas conquistas pessoais, é o motivo pelo qual seremos lembrados por aqueles que nos amam. E, com certeza, a gente sente muito mais falta de um abraço de alguém querido do que nossa beleza física, grana, status e todas essas coisas que acabam muito fácil.

 

Abraços.